Bagna Cauda: a rainha do Piemonte

dsc_0635A província de Córdoba na Argentina é famosa pelas suas montanhas com rios de águas transparentes, pelo humor de seus habitantes e pelas tradições e comidas italianas que os imigrantes eternizaram. Salames, queijos, macarronadas e delícias feitas como 100 anos atrás continuam intactas. Minha família, como todas, mantinha os costumes e, cada vez que eu viajava do Brasil para visitar minha mãe Elena, meu irmão Miguel e sobrinhos, me aguardavam com “uma rainha do Piemonte”: a Bagna Càuda (ou Bagna Caoda) ou em bom ‘argentinês’ “bañacauda”. Ainda não se chegou a uma conclusão sobre o nome em piemontês. A tradução mais apropriada seria algo como calda quente. E coloca quente nisso.

Se minha memória não falha, leva mais de um quarto de litro de azeite de oliva, 150 g de anchovas, meio tablete de manteiga (100 g) e uns 10 dentes de alho bem picados. A original é assim, mas para amenizar o sabor da anchova e do alho, vale colocar mais ou menos 250 g de creme de leite fresco, como fazem em Córdoba. E a dica, a quantidade de ingredientes varia de acordo com o lugar, a família ou os convivas.

coloridaMeu irmão colocava muito, mas muito alho, e como consequência, toda a casa ficava com aquele “perfume”. Eram muitas cabeças (sim, cabeças e não dentes de alho) e muitas anchovas, e não muito creme de leite. Para ir mais rápido, fervia-se tudo antes, assim as anchovas e os alhos se dissolviam.

Depois, tudo numa panela de barro sobre a mesa com fogo lento, algo parecido com a fondue. Com esse caldo a gente se “matava” comendo as verduras cruas ou levemente cozidas (al dente) colocadas em potes também sobre a mesa: couve-flor, aipo, cebolas cozidas, couve-de-bruxelas, pimentão, cenoura, brócolis entre outras, acompanhadas de rodelas de pão italiano para não pingar o molho. O ritual era comer de pé ao redor da mesa e, claro, tendo ao lado a companhia de um bom Malbec.

Essa iguaria nasceu do frio do Piemonte, pertinho dos Alpes, do Monte Bianco, ou Mont Blanc, na França e na Suíça, criadora da fondue. Foi da necessidade de combater o inverno de baixíssimas temperaturas, em meio à neve das montanhas, que surgiu este delicioso prato, capaz de esquentar o corpo e a alma. E, pode acreditar, a temperatura do corpo explode. E o espírito agradece.

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Felix“Dediquei minha vida ao jornalismo de celebridades, mas com o tempo percebi que ‘célebre’ também pode ser uma delícia num prato ou num copo, e, assim como os famosos, os comes e bebes têm história, presente e futuro. Então, por que não escrever sobre eles no decorrer das minhas viagens por este planeta tão saboroso?”

Felix Fassone

Fotos: Bagna Cauda Day

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