Bourbon, a delícia que nasceu na América

bourbonpEmbora muita gente saiba corretamente a diferença, não são muitos que conhecem a fundo a história do bourbon, o chamado uísque americano.

Em filmes, é comum que a tradutora (sempre é uma mulher tradutora) acabe por usar a palavra uísque quando em inglês a gente ouve claramente o personagem dizer: “Bourbon, please!”. A tradutora então está errada? Sim, de certa forma está.

Grosso modo, o uísque está para o bourbon assim como o conhaque está para a tequila. São feitos com álcool e são bebidas destiladas. E acabou aí a semelhança.

O uísque ou os single maltes são feitos geralmente de trigo e centeio, embora em suas origens, por perto do final do século 15, tenham sido produzidos com cevada. Puáá! Deviam ser uísques bem amargos.

Já o bourbon, em toda a sua delícia, é feito desde os primórdios, em torno do século 18, com milho. No mínimo 51% dele deve ser de milho.

Diz a lenda (não muito crível) que o primeiro bourbon norte-americano, feito com barril interiormente chamuscado, teria sido obra de um pastor batista chamado Elijah Craig (1738-1808).

Além de pastor, Craig era um educador. O local onde ele estabeleceu sua comunidade, na Virgínia, acabaria se tornando mais tarde o Estado do Kentucky. Sua destilaria foi fundada em em 1789 no condado de Woodford que, aliás, produz até hoje um outro famosíssimo bourbon: o Woodford Reserve –que vem a ser o bourbon preferido do personagem Charlie Harper (Charlie Sheen) no famoso seriado “Two and Half Men”.

Como minha amiga Esther Rocha ensina a respeito de sua bebida preferida, a verdadeira champagne só pode ser chamada assim se tiver origem integral no território francês homônimo. Pois o bourbon, para ser chamado assim, tem de ter nascido e engarrafado no Estado norte-americano do Kentucky.

Existem excelentes bourbons uísques, ou melhor, whiskeys feitos em outros locais da América, como Colorado, Carolina do Sul e Tennessee. Também são feitos de milho e com processo semelhante ao do bourbon, mas, nesse caso, não podem ser chamados assim.

Jack Daniel's Single Barrel

Jack Daniel’s Single Barrel

A propósito, sobre o Tennessee, é nesse Estado que é produzido o famosíssimo Jack Daniels. No Brasil, o Jack costuma ser incorreta e inadvertidamente oferecido pelos garçons aos clientes quando eles perguntam: “O senhor tem algum bourbon?”

Não, senhoras e senhores garçons! Jack Daniels não é nem de longe um bourbon, embora o standard seja um ótimo uísque americano de 40% –bem, um tanto fraquinho para gente como eu, que prefere emoções quentes e sempre acima dos 47%. Mas temos o JD´s Single Barrel.

Em termos de gosto, o uísque é uma bebida tensa e ácida, a bebida dos homens de negócio, dos publicitários, dos jornalistas nervosinhos. É um tanto refrescante até, quando sorvida com um gelo de alta qualidade.

Já o bourbon é uma bebida relaxante, calma, introspectiva, para se beber em casa ouvindo boa música, ou ser apreciada harmonizadamente com um bom charuto cubano.

Em termos de paladar, o bourbon lembra muito mais o conhaque do que o uísque escocês. Justamente por isso nunca se deve beber bourbon com gelo. Seria como colocar gelo em um conhaque ou armagnac. Isso lá é coisa que se faça? Nanananana. Está errado.

E vocês leitores saibam que até as formigas preferem o bourbon ao scotch.

Esqueça um copo com um pouco de scotch ou malte sobre a pia e ele amanhecerá do jeito que você deixou.

Esqueça um pouco de um bourbon como o Angel´s Envy no copo e você acordará com um monte de cadáveres no fundo dele na manhã seguinte.

Bom, pelo menos elas morreram felizes. Isso porque o Angel´s passa um tempo armazenado em barris usados anteriormente para vinho do porto. E tem uma das mais belas e sexies garrafas entre todos os bourbons: ela lembra o corpo de uma mulher curvilínea e tem asinhas de anjo desenhadas na parte de trás. Slép!

Os melhores bourbons podem custar mais de US$ 10 mil a garrafa e o pior é que nem se você tiver disposição e dinheiro para comprar, talvez você não os ache.

mrpappy

Este é Pappy van Winkle

Uma verdadeira lenda entre essas bebidas é o Pappy van Winkle (algumas edições passam dos US$ 10 mil), o Elijah Craig 18 (virou um mito nos últimos três anos e é praticamente impossível de ser encontrado mesmo nos EUA) ou o delicioso Willett 21 anos.

No Brasil você com sorte encontrará bourbons bem razoáveis, como Jim Bean Black (não confundir com o Jim Bean Black Triple, que é inferior) e o Makers Mark um excelente bourbon standard.

No caso do primeiro pagará por volta de R$ 140 a garrafa (750 ml). No caso do segundo, cerca de R$ 200 (750 ml).

Recentemente tenho visto em muitos supermercados dois bourbons muito populares na América: o Wild Turkey (fraquinho, a meu ver) e o Ewan Williams. Sobre este último, não recomendo de forma alguma –especialmente se você quiser fazer sua primeira degustação de um bourbon.

O Ewan é grosseirão, duro, quase violento. Deve ser o que há de mais próximo da bebida que vemos os caubóis do Velho Oeste tomarem em filmes de faroeste. Brrr! Medo!

Há outros bourbons populares, mas de classe, que ainda não chegaram ao público brasileiro comum. Entre esses estão o Bulleit (Diageo), o Black Widow e o próprio Elijah Craig standard.

No entanto você pode achar algumas garrafas deles numa loja de bebidas na av. Dr Arnaldo, a Confraria Queijo e Vinho, (www.confrariaqueijoevinho.com.br ).

A proprietária, Margarida Coleto, há anos minha amiga e fornecedora, deve ser uma das poucas mulheres do mundo que sabe realmente o que é um bourbon de qualidade. Pensando bem, ela é uma das poucas mulheres que eu conheci no mundo que gosta de bourbon.

Sim, o bourbon, assim como o conhaque, os gols da rodada e o rock progressivo, é uma coisa basicamente consumida por homens.

Mas as mulheres serão sempre bem-vindas ao nosso mundo. Desde que não façam caretas e reclamem no primeiro gole: “Argh! Como isso é forte!” (viu, dona Esther Rocha?!)

Até a próxima coluna!

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