Masterchef traz Ouriço do mar, prato preferido de Salvador Dalí

daliouri'xoEsta semana o Master Chef Brasil desafiou os participantes a preparar um ouriço do mar, uma iguaria nada comum no cardápio dos brasileiros, mas sem sombras de duvida, deliciosa e especial. Desafiar cozinheiros iniciantes a preparar algo especial com um ingrediente tão exótico foi um desafio um tanto cruel.

Os ouriços do mar são bichos estranhos. Equinodermos (tal como as estrelas do mar), são animais invertebrados marinhos caracterizados por uma simetria radial na fase adulta. Assim, ao abrir um ouriço encontram-se, protegidas por uma carapaça coberta de espinhos, 5 línguas, que são os órgãos reprodutivos do ouriço. Elas são as partes comestíveis e têm uma textura cremosa e um profundo sabor a mar

daliouricoMas o assunto aqui não é o Masterchef e sim um gênio da arte que tinha o ouriço do mar na lista de seus pratos preferidos. Estou falando de Salvador Dali, mestre do surrealismos e expert em assuntos ligados à comida. Dalí era um gourmet com requintes raros e, além de devorar deliciosos pratos com um prazer incomparável, ele imortalizou seus alimentos preferidos em seus quadros.

Dalí aconselhava artistas em busca de inspiração à almoçar três dúzias de ouriços, sempre três dias antes à lua cheia, quando estavam no auge de suas “virtudes sedativas e narcóticas”. Eles devem tirar uma soneca antes de “sentar na frente de uma tela em branco”.

Certa vez, em um de seus restaurante preferidos, Dalí devorou trinta ouriços-do-mar em um só jantar. A porção normal servida pelo lugar era de seus. Ele gostava de saborear a carne rica e untuosa e seu sabor salino do mar com pão bem torrado e vinho tinto, desfrutando da sensação de puxar o “coral palpitante” da casca frágil. Ocasionalmente, ele comia o marisco à la Catalane, com um molho de chocolate escuro, que ele dizia lhe proporcionar “sonhos interessantes”.
Ouriços do mar estão presentes em inúmeras pinturas e esculturas de Dalí. Uma das mais famosas está em uma parede em sua casa em Cadaqués. Em destaque, na sala, pode ser vista até hoje uma abóbada imitando uma concha de ouriço, e conchas reais encrustradas nas paredes do jardim. Dalí dizia “sou o que como e não o que faço”. Para ele comer não representava apenas o ator de se alimentar, e sim uma fonte de prazer e inspiração criativa.

No mundo de Salvador Dalí, o sagrado e o erótico, o místico e o gastronômico se fundiram em um fluxo perfeito de imagens e idéias. Os gêneros alimentícios assumiam significados esotéricos que muitas vezes eram compreensíveis apenas por ele. Por um lado, em seu trabalho há a casca dura, espinhosa do ouriço, que protege a suculenta suavidade comestível dentro, por outro, a pele rachada da romã derramando sementes vermelhas e sucos agridoce. Não foi àtoa que pintou preciosidades como Retrato de Gala com dos “costillas de cordero em equilíbrio sobre su ombro” e “autoretrato blando con beicon frito”, além de pinturas menos explicitas como o famoso La percepcion de la memoria, onde relógios se desmancham como um queijo camembert derretendo-se.

Afirmava que, desde os seis anos, sua vocação secreta era ser cozinheiro. Conhecia muito bem os pratos tradicionais de Ampurdán e Cataluña. Mas nos tempos de crianças, Dalí relembrava que seu severo pai sempre fez questão de mante-lo longe da cozinha. Isso só aumentou ainda mais sua curiosidade e paixão pelo aromático comodo da casa.

Em 1973, toda essa paixão pela arte de comer se transformou em um livro elegante e raro, “Les Diners de Gala” (relançado recentemente pela Editora Taschen). Trata-se de um relato divinamente ilustrado dos nababescos jantares oferecidos e/ou encenados por Salvador Dalí e sua esposa e musa Gala. São 12 capítulos e 136 receitas organizada por temas variados e inusitados, como um capítulo sobre culinária afrodisíaca. Todas as ilustrações foram feitas por Dalí especialmente para o projeto. Além da arte e das receitas, as páginas trazem ainda reflexões inesperadas do artista, como “a mandíbula é nosso melhor instrumento para compreender o conhecimento filosófico”.

No prefácio do livro Dalí avisa à que veio: “Gostaríamos de deixar claro que, a partir das primeiras receitas, aos prazeres do gosto. Não busque aqui fórmulas dietéticas […] Se você é um discípulo desses ‘contadores de calorias’ que transformam os prazeres da comida em uma forma de castigo, feche este livro de vez, já que ele é demasiado vivo, demasiado agressivo e demasiado impertinente para você’.