O livro de receitas mais cafona – e romântico – da história

The romance of food

Kitsch é a melhor palavra para definir esta pérola da literatura gastronômica. A inglesa Barbara (1901 – 2000), jornalista e escritora que focou seu trabalho em romances e livros sobe boas maneiras é considerada uma lenda literária do Reino Unido. Sua obra soma 723 livros que foram traduzidos em 36 idiomas e alcançaram a marca de 1 milhão de cópias vendidas ao longo de sua vida e um registro no Guinness Books.

Seus romances são protagonizados por heroínas bregas e jovens galãs fardados. Mas hoje quero falar do livro “The romance of food”(O romance da comida), publicado em 1984 e, obviamente, desconhecido para amantes da gastronomia. Mas vale muito pela curiosidade.

Típica senhora britânica, Barbara tinha uma personalidade marcada pelo exagero e seu visual remete a figuras como o pianista Liberace e as super drags Ru Paul e Paulette Pink, esta última brasileira. Não bastasse o talento para escrever sobre o amor, ela tinha uma faceta menos conhecida: escreveu sobre culinária e lançou livros completamente malucos que misturam gastronomia, amor e muito exagero.

As receitas desta obra-prima da cozinha kitsch são de autoria de Nigel Gordon, seu personal chef, mas os comentários e demais textos foram escritos por ela. Na orelha do livro o texto promete “reviver até mesmo os amantes mais cansados e colocar uma canção no coração dos mais sedutores”.

Na introdução Barbara afirma que “os franceses são os maiores entendedores deste assunto, por isso as receitas do livro foram inspiradas em sua gastronomia. “Todo francês escolhe a sua refeição com o mesmo cuidado e a mesma concentração que dedica ao escolher uma mulher para amar”. Os grandes chefs franceses devem ter ficado lisongeados com tal afirmação. #SQN

Frango pink chicNessa pegada ela ensina receitas empratadas para despertar à atenção até dos mais desligados. Assim é seu “Frango pink chic”, um peito de ave servido com molho rosa e decorado com imagens de anjos feitos de quartzo rosa. A autora define o prato como uma iguaria perfeita para dizer “eu te amo” e deixar seu par com as bochechas vermelhas de emoção.

A autora viveu focada em prioridades não menos esquisitas, comprar objetos para decorar sua casa na zona rural de Inglês. As fotos do livro contam com a presença de sua coleção pessoal de cisnes, cães, pássaros, pastores e anjos, armazenadas em um galpão de dez mil metros quadrados. Um verdadeiro acervo da breguice!

Embora pareça ser apenas uma escritora preocupada com seus mocinhos e mocinhos apaixonados, Barbara dizia entender de nutrição e pregava ser “o café da manhã é a refeição mais importante do dia”, além de explicar para seus leitores que “cientistas de todo mundo comprovaram que o super óxido tem o poder de retardar o envelhecimento, fazendo a pessoa sentir-se 20 anos mais jovem”. Também fez questão de deixar registrada em seus livros sua descrença do poder afrodisíaco de alimentos como ostras, ovos crus e salmão.

spanishOutra pérola do mal gosto presente no livro é o Spanish Rapsody, um escalope de vitela com arroz crioulo, abacaxi, tomate cereja e um molho velouté, tudo junto em um único prato legendado por ela como um momento em que “os corpos sensuais dos dançarinos, a batida de seus pés, o barulho das castanholas se fazem presentes em um prato exótico e emocionante”. Oi?

Os nomes de suas receitas deveriam ser expostos em uma mostra do “melhor do rococó”, se é que isso existe… Vamos à alguns deles: “O fogo do amor”, um cozido de batatas e frango; “Alegria dos deuses”, uma salada de alface, tomate e tudo o que Barbara encontrou em sua geladeira. O mais prato mais apaixonado chama-se “amor verdadeiro”, uma sobremesa com três frutas, perfeita para “uma noite inesquecível com um coração coberto com delicioso puré de framboesa, outro com mousse de laranja e o terceiro com maracujá. O toque de “classe” fica por conta dos anjinhos bregas decorando o prato e dividindo a cena com flores brancas. Para nossa estrela a tal história do “menos é mais” é pura balela.

Tem também o capítulo das sopas que traz “Ciganos Mágicos”, uma sopa de agrião servida ao lado de “homens errantes que vagam romanticamente pelos campos”, além de uma sopa de beterraba chamada Borsch, prato tradicional servido em diversos países do Leste Europeu.

chuletaOusadia maior está nas “costeletas de cordeiro com mel”. Barbara garante que “o mel é a comida do amor. Ofereça à homens que amam chuletas com mel e aroma da madressilvas e sonhe com uma lua-de-mel […] Qual mulher não anseia por ser levada como um cordeiro nos braços do homem que ela ama?”

Não faltou a versão Barbara do Beef Wellington que “dá virilidade e força … e é um prato sedutor capaz de inflamar os sentidos “. Nesta produção, meu coração balança pelo elegante cavaleiro que faz parte da decoração do prato. E o “pato com laranja”, um clássico francês que ela ousou dar um toque oriental na hora de empratar, com direito a dois patos e um chinês dividindo a cena… “Um prato de pato com toque de magia chinesa”.

Um momento mais místico batizado de “frutos do mar numa cesta de melão” que levará à sua boca “as maravilhas ocultas das profundezas que evocam as maravilhas místicas do amor”. A produção conta com estatuetas de peixes coloridos, alguns camarões inteiros e… groselhas frescas.

Pra fechar a lista com chave de ouro, dois ícones do romantismo:

Bolo de casamentoE quando chegar o grande dia, celebre suas núpcias com um bolo criado pela senhora Cartland. “Lírios de pureza, rosas para o romance, cupido para o amor e um Rolls Royce branco. O que mais pode desejar uma noiva romântica?

Uma doce – e milionária – senhora

Natural de uma família bem tradicional, filha de um oficial do exército britânico, Barbara Cartland começou a escrever aos 21 anos e tinha como rotina escrever um romance a cada duas semanas.

Além do sucesso em todo o mundo, foi a autora mais traduzida para o português, com 324 edições publicadas no Brasil, desbancando nomes como Agatha Christie, Julio Verne e William Shakespeare.

Em seus 98 anos de vida, escreveu 723 livros, traduzidos para 38 países. Em1985 ganhou espaço no Livro dos Recordes por ser a autora com mais de um bilhão de livros vendidos no mundo e mais obras escritas em um mesmo ano.

Foi casada com um membro da aristocracia rural mas, durante uma viagem a Paris, se apaixonou por um homem pobre. “Estava em êxtase, completamente dominada por ele, como só uma mulher estúpida pode ser”, relembrou a romântica senhora que, segundo seus próprios relatos recebeu 46 propostas de casamento ao longo da juventude e maturidade. Casou-se três vezes, teve três filhos mas, aos 80 anos, revelou que “nunca gostou de ser tocada”. Mesmo assim, por ocasião de sua morte, o jornal inglês “The Guardian” a homenageou com o título de “Rainha do Amor”.