Oi? Um livro de receitas diz o que não deve ter na mesa das pessoas decentes

Um livro de receitas do século XVIIINas últimas semanas ando mergulhada no universo de Frida Kahlo para entender qual o espaço que a gastronomia ocupava na vida dessa mulher. Minha principal fonte de estudos é o livro Fiestas de Frida Y Diego (Inédito no Brasil), escrito pela filha de Diego Rivera. Outro livro interessante é El libro secreto de Frida Kahlo, de Francisco Haghenbeck (O Segredo de Frida Kahlo, lançado no Brasil pela Editora Planeta) .

Pra começar meus estudos sobre a artista e seu paladar, fui buscar quais os livros que ela usou quando decidiu aprender a cozinhar para a gradar o seu amado Diego.

Encontrei referencia do Nuevo Cocinero Mejicano en Forma de Diccionario (um livro lançado em 1888). A enteada conta que artista herdou sem exemplar de sua mãe, Matilde Calderón y Gonzalez.

Liguei para amigos no México e descobri que esse livro segue sendo editado até os dias de hoje. É claro que tratei de conseguir um exemplar, pois a ideia é conhecer, entender e recriar os menus de Frida.

Bastou eu receber alguns capítulos adiantados para entender que não foi ele quem guiou os passos de Frida na cozinha. A velha obra, publicada pela primeira vez por uma editora francesa especializada em livros espanhóis, na verdade só vale pela curiosidade. Ela mistura a cultura mexicana com influencias espanholas e pitadas francesas, batizadas pelos autores como “recetarios mexicanos afrancesados” (livros de receitas mexicanas afrancesados).

Tamales!!!!!!

Tamales!!!!!!

Além de falar sobre salgados e doces, o livro se propõe a ensinar métodos para decorar os pratos e também diversas maneiras de servir à mesa. Mais do que isso, numa atitude totalmente colonialista, ele dita regras relacionando o que deve e o que não deve ser consumido por uma pessoa de bem. Fica claro o impacto, nada amistoso, que a cultura espanhola teve sobre os mexicanos. Enquanto as cozinhas pré-hispânicas é tratada como sinônimo de autenticidade, tradição e prestígio, a culinária dos grupos indígenas contemporâneos é definida como uma atividade de “tribos bárbaras”.

O caso dos tamales ilustra muito bem o que estou falando. O livro afirma que trata-se de “um pão saboroso e delicado, usado pelos antigos habitantes indígenas deste continente”, que mais tarde foi incorporado à dieta dos descendentes de espanhóis. Mais adiante, o autor aconselha seus leitores a absterem-se de consumir pratos típicos dos indígenas por serem inadequados para “mesas decentes”. E tem mais: caso por “capricho” você queira comê-los, é melhor comprá-los dos índios, pois jamais se deve preparar tamales em sua casa. Oi?

Tortillas prontas pra serem devoradas... Ao lado esquerdo, o meu livro Fiestas de Frida Y Diego

Tortillas prontas pra serem devoradas… Ao lado esquerdo, o meu livro Fiestas de Frida Y Diego

Eu simplesmente AMO tamales, quando passo minhas temporadas em Tulum, na Riviera Maya, faço questão de pedir ao amigo Antônio para me levar alguns feitos por sua mulher. Ela faz os melhores que já provei, recheados com ovos de pata e folhas de Chaya (também conhecida como espinafre maya).

Logo mais vou publicar fotos dos tamales que fiz na noite passada e também ensinar como fazê-los de maneira artesanal, do jeitinho que as mulheres maias me ensinaram. Eles têm um astral bem mexicano, um visual rústico e um sabor exótico que vale a pena.

Moral da história: Tudo bem que Frida tinha esse livro, mas ela certamente não dava a menor bola para as baboseiras que ele prega.

 

“A arte mais poderosa da vida é fazer da dor um talismã de cura. Uma borboleta renasce florescida numa festa de cores”, Frida Kahlo

 

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