Uísque, modo de usar: com ou sem gelo?

Uísque, modo de usar: com ou sem gelo?A partir de hoje começo a colaborar com o site da minha querida amiga Esther Rocha, a quem conheço há quase 21 anos. Ou seja, nossa amizade é um verdadeiro single malt. E nada mais apropriado que eu me tornar um colaborador no assunto que mais gosto (depois da música): bourbons, maltes, scotchs e outros destilados. Nessa ordem.

Não posso me arrogar o título de expert. Não tenho, em bebidas, o estofo de minha amiga Esther na área gastronômica, mas, de tanto viajar pelo mundo, fazer cursos etílicos de todo o tipo e, claro, ter uma imeeeeeeensa experiência prática (desculpem o eufemismo para “beber bastante”), acho que posso dar dicas, sugestões e contar histórias bacanas sobre algumas bebidas que gosto e admiro.

Nesta primeira coluna, gostaria de dar minha opinião privada –agora pública– e responder ao título desta coluna primeva. Uísque se bebe com ou sem gelo?

Para responder a isso tenho de fazer primeiro outras duas perguntas a você, leitor: 1) que tipo de uísque você bebe? 2) que tipo de gelo tem na sua casa?

Sobre o segundo item, se você é daqueles que pega a bandejinha de gelo, enfia embaixo da torneira da cozinha e joga de volta ao congelador, a resposta mais coerente é: SEM GELO, POR FAVOR.

A água que forma o gelo tem papel fundamental na bebida que você consome. Acredite, se você não está nem aí para o tipo de água sólida que está colocando em uma bebida tão cara, então está claro para mim que você deveria abrir mão do gelo. Melhor colocar o copo no congelador e depois despejar apenas meia dose do seu uísque preferido no copo e bebericar aos pouquinhos.

Isso vale ainda mais no caso de um scotch de garbo, e mais ainda se estivermos falando de um single malt. Não vale a pena destruir uma arte, como um single, despejando nele gelo feito de água do volume morto do sistema Cantareira.  

Uísque, modo de usar: com ou sem gelo?Não custa quase nada usar água mineral para fazer seu gelinho. Se quiser usar água de torneira, ok, mas antes ferva a água a 100 graus por pelo menos 30 segundos. Depois deixe resfriar um pouco e coloque (ainda quente mesmo) na bandejinha e mande para o congelador.

Ao contrário do que sua avó sempre te ensinou, colocar líquidos e sólidos quentes não estraga nem congelador nem geladeira. Podem confiar em mim. Calor não faz a menor diferença num ambiente tão seco como a geladeira e o freezer, Aliás, sabiam que a geladeira é o lugar mais seco que tem em uma casa? Parece tão úmido, né? Mas é o oposto. Mas isso fica pra eu contar outro dia.

A primeira coisa que você notará no gelo feito com água mineral ou água fervida é que ele ficará muito mais transparente que o gelo de água de torneira. Como tem pouquíssimas ou nenhuma bactérias, a solidificação ocorre sem causar aquele esbranquiçamento que vemos no gelo que sai da casa da vovó. Sim, aquele esbranquiçamento é causado por impurezas da água.

Agora, vamos supor que você ganhou um escocês Macallan 18 anos (nem vou citar o 25) ou um amber; ou ainda se for um japonês Suntory ou, quiçá, um Jura 16 anos. Minha sugestão é que você não rebaixe o nível dessas bebidas colocando gelo de nenhum tipo. Em vez disso, pingue algumas gotas de água mineral nele (uma colher de chá, mas lave a colher antes).

Parece frescura, mas é pura química. A adição de apenas algumas gotas de água causará uma imensa reação química complexa na bebida e soltará ainda mais seu sabor e aroma.

Então a primeira dica é: single malt não deve ter gelo, no máximo gotas de água mineral. Scotchs podem ter gelo, mas com água de qualidade.


Uísque, modo de usar: com ou sem gelo?Claro, se você não é tão exigente e gosta de uísques não muito caros (como um Red Label, por exemplo), então vale, sim, colocar gelo. O mesmo vale para o Double Black, que tem uma textura diferente do Red, mas também fica ótimo gelado. Mas nunca um gelo feito com água do volume morto, repito.

Vale dizer que existem  uísques que nasceram para ser bebidos com gelo, sabiam? O mais famoso e popular é o irlandês Jameson, tanto o standard (que qualquer supermercado tem) como o 12 anos (que não existe à venda no Brasil).

Aliás, uma forma bacana de se beber Jameson é em copo alto. O copo deve ser preenchido com gelo até a borda (isso mesmo, muito gelo). Depois, vire a garrafa por uns cinco segundos. Deixe o líquido descansar e se refrescar no gelo por cerca de um minuto. Então comece a diversão.

O Jameson (especialmente o 12) parece ter nascido para o gelo, assim como o bourbon nasceu para ficar longe dele, mas isso será assunto da próxima coluna.

Outro scotch que cai muito bem com o gelo é o famosíssimo Chivas, em todas as suas versões. Dalmore, Dewar´s, Cutty Sark, Logan, Old Parr, Buchanans, Dimple e Famous Grouse também ficam ótimos quando misturados a um gelo de qualidade. São bebidas redondas que se recriam quando a boa água é adicionada.

Já um Royal Salute, um Macallan, um Hibiki, single malts como Glenmorangie, Glengoyne ou Glenlivet –sejam de que idade forem– ou mesmo as linhas top da Suntory, pessoalmente acho que voc~e não deve cometer o erro de alterar o sabor com nada. Nem mesmo com gelo feito com água retirada de icebergs da última era glacial. Nada. 

São tesouros puros. Verdadeiras obras de arte, que passaram anos, muitas vezes décadas em lenta gestação. Estão prontos para ser apreciados em toda sua glória. Sem gelo.

Uma vez, numa festa na casa de um amigo generoso demais, vi convidados misturando um Royal Salute (um daqueles embalados no famoso saquinho de veludo roxo) com Coca-Cola.

Para mim isso seria caso de excomunhão e fim imediato da amizade, com direito a escolta até a portaria. Meu generoso amigo deu de ombros quando sugeri que tirasse, pelo amor de Deus, por Jesus Cristinho, aquele soberbo RS da mesa e o substituísse por um Teachers ou, vá lá, um Red Label. Eu vou lá no posto de gasolina e compro outro. Por favor! Estão estragando uma joia, disse a ele.

Uísque, modo de usar: com ou sem gelo?“Deixa pra lá, Feltrin, a garrafa tava parada aí há um século mesmo”, respondeu-me rindo e despreocupado. Eu, por outro lado, estava quase chorando. Ainda acordo às vezes no meio da noite, lembrando da cena de uma menina bêbada (e idiota) despejando o Royal Salute num copo de plástico para “dar mais sabor” à Coca-Cola. É sério. Queria esganá-la.

Na próxima coluna, espero poder falar um pouco sobre bourbons, que são o grande amor da minha vida (depois da Ellen Rocche).

E, antes de mais nada, NÃO! Jack Daniels NÃO É BOURBON.

Saúde! 

Ricardo Feltrin

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