Umberto Eco também falou de comida

Umberto Eco também falou – e escreveu – sobre comida

Nesta sexta-feira, 20 de fevereiro, o mundo recebeu com tristeza a notícia da morte do escritor e filósofo italiano Umberto Eco, aos 84 anos. Ele estava em sua casa, em Milão, Itália e a causa morte não foi divulgada. Especula-se que ele lutava contra um câncer.

Escreveu livros como Pêndulo de Foucault (1988) e O Cemitério de Praga (2010), além de O Nome da Rosa (1980), o mais famoso de deles, que chegou ao cinema protagonizado por Sean Connery, no filme dirigido por Jean-Jacques Annaud. Além de romancista de sucesso, sua obra é marcada por ensaios sobre estética medieval, semiótica, linguística e filosofia. Seu ultimo livro foi Número Zero, lançado em 2015.

Eu estava voltando pra casa depois de encarar uma sexta-feira chuvosa em São Paulo, quando ouvi, pelo rádio, a notícia de sua morte. Imediatamente lembrei de um livro sobre comida italiana que descobri recentemente, durante uma viagem de férias. Xeretando numa livraria de San Francisco, me deparei com um prefácio escrito por Umberto Eco. Achei curioso, pois em minhas noitadas de pesquisas sobre comida e notáveis, eu havia encontrado uma entrevista onde o próprio autor confessava nunca ter sido um grande gourmet.

Cheguei em casa ansiosa pra encontrar o tal livro, baixado na biblioteca do meu Ipad. Lá estava ele! Perché agli italiani piace parlare del cibo (Por que italianos amam falar sobre comida), lançado em 2009 pela ensaísta russa Elena Kostioukovitch.

Umberto Eco e Elena Kostioukovitch. Foto: Site oficial da autora.Mas se comida não era o seu forte, por que teria esse autor aceitado o convite para prefaciar um livro deste tipo. Ele mesmo explica isso durante seu texto, usando de uma sensibilidade invejável. Humberto Eco, como ele mesmo diz, pode não ter sido um gourmet, mas ele sabia perfeitamente tudo o que a comida representa. Eu traduzi abaixo alguns trechos do prefácio (de antemão aviso que meu inglês é do tipo trivial simples, mas garanto que não distorci, nem comprometi, o sentimento do autor. E pra mim isso é o que importa!

“Porque eu estou escrevendo o prefácio de um livro sobre comida? Eu me questionei sobre essa mesma questão quando a autora me convidou. Aceitei porque, em primeiro lugar, Elena é minha tradutora em Russo, e eu a admiro não somente pelo cuidado e paciência que tem pelos meus livros, mas também por sua inteligência e vasta cultura. Essa é uma razão suficiente, eu me perguntava, uma vez que não sou um gourmet?

[…] Um gourmet não é meramente alguém que se contenta com um excelente Pato com laranja ou uma generosa porção de Volga Caviar com Blini. Essa pessoa é apenas alguém que não se deixou perverter pelo McDonald’s. Um gourmet, um epicurista, um verdadeiro entusiasta da cozinha, é alguém capaz de viajar centenas de quilômetros para ir até um restaurante especial, onde se faz o melhor pato com laranja do mundo. E eu não sou essa pessoa. De um modo geral, se puder escolher entre comer pizza a algumas portas da rua e pegar um taxi para descobrir uma nova trattoria (especialmente se for a alguns quilômetros de distancia), eu escolho a pizza.

Imagem do livro Why Italians Love to Talk About Food. MacMillan Publisher

Mas será que essa é verdade? Eu recordei que viajei quilômetros e quilômetros por Langhe (perto de onde eu nasci, e o lugar citado por Elena no capitulo sobre o Piemonte), para levar um amigo francês à conhecer a lendária trufa branca, e outros tantos quilômetros para levá-lo à um jantar “Bagna cauda” em Nizza Monferrato, onde a refeição começa ao nascer da lua e termina às cinco horas da tarde e tudo, exceto o café, é feito com alho.

E eu também fui ao mais remoto arredor de Bruxelas apenas para provar a cerveja belga chamada Gueuze, que apenas é servida localmente… se não tiver transporte, não vá (compre no caminho a britânica Ale, que é melhor).

Bem, a cozinha me interessa ou não? Vamos voltar ao exemplo que citei acima. Em primeira instancia é descobrir que tipo de cerveja os belgas gostam, em outro momento introduzir a cultura do Piemonte a um estrangeiro e em terceiro lugar, redescobrir um ritual como o “Bagna cauda”, que me fez voltar a momentos da minha infância. Em todos estes casos eu vi a comida não apenas com algo para satisfazer meu paladar, mas uma experiência iluminada, ou um flash de lembrança, ou para entender as tradições e mostrá-las aos outros.

[…] Se eu estou sozinho, eu certamente vou comer a pizza na pequena trattoria na rua debaixo, ao invés de me aventurar em uma exploração culinária. E sempre que eu chego em um novo pais, antes de visitar museus e igrejas, eu faço duas coisas: passeio pelas ruas tentando me perder pelo caminho, observando as pessoas, as janelas das lojas, as cores das casas, e saborear os aromas, e então vou em busca de uma comida local, porque sem essa experiência da comida, eu não vou entender o lugar que estou, e esse é minha única maneira de pensar.

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Capa da versão italiana do livro

[…]E ai eu entendi que uma excelente razão para introduzir o livro de Elena, é porque Elena nos mostra seu prodigioso conhecimento sobre a comida italiana em todas as nuances e mistérios, levando-nos pela mão (e vamos dizer também pelo paladar e pelo nariz), por uma jornada culinária, não apenas para nos familiarizar com a comida italiana, mas também para nos mostrar a Itália, o pais que ela vem descobrindo durante sua vida. Este livro que você esta prestes a ler é um livro sobre cozinha, mas é também um livro sobre o pais, a cultura, realmente sobre muitas culturas.

Para conhecer a comida italiana em todas as suas variedades é preciso descobrir as monumentais diferenças, não apenas de linguagem, mas de sabores, mentalidade criatividade, senso de humor, atitude diante do sofrimento e da morte, eloquência, taciturnidade… O que separa um siciliano de um piemontês ou um veneziano de um sardenho. Na Itália, talvez mais que em qualquer outro lugar, descobrir a cozinha local significa descobrir o espirito dos habitantes de cada lugar. Testar os sabores piemonteses da “bagna cauda”, depois a sopa cazuela da Lombardia, então o tagliatelle ao estilo Bolonhês, depois o cordeiro alla romana e finalmente a cassata siciliana… e você vai sentir como é possível se mover da China para o Peru, e do Peru para Timbuktu.

Italianos ainda precisam conhecer as muitas cozinhas de seus compatriotas parentesco nacional? Eu não sei. Eu sei que quando um estrangeiro se muda depois de comprar uma casa, movido por um grande amor por esta terra, ele continua sendo capaz de manter o seu olhar individual de alguém que vem de fora. E ele começa a descrever a Itália para nós através do seu alimento, fazendo os próprios italianos redescobrirem um país que eles (talvez ) tinham em grande parte esquecido. E por isso devemos ser gratos a Elena Kostioukovitch.”

Incrível! Dispensa comentários…

Sobre o livro

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Capa do livro, versão em inglês.

Eu comprei a versão e-book em inglês do livro, Why Italians Love to Talk About Food. Este não é um livro de receitas e sim uma grande viagem por todas as regiões da Itália, com paradas em seus pratos e bebidas típicas, com direito a uma analise de como isso tudo faz parte da cultura de cada lugar.

Elena sabe nos mostrar não somente a importância que a comida tem para este povo, como ilustrar o seu consumo e preparo acontecem de maneira ritualística, num ambiente cheio de magia que agrega as famílias e vizinhos, dando origem a um estilo de vida único e particular.

É o tipo de livro que eu adoro. A linguagem é apaixonada, e a relação da comida com as tradições e cultura local é lembrada com exemplos e historias deliciosas.

Nascida na Russia, Elena Kostioukovitch elegeu a Itália como sua terra ideal para viver. Além de escritora, ela também é professora na Università degli Studi di Milano.

Só pra esclarecer…

Bagna Cauda

O texto de Umberto Eco fala da Bagna cauda. Você sabe o que é isso? Eu não sabia.
É um molho quente à base de alho, azeite de oliva, anchovas e manteiga. É servido como antepasto ou como prato principal, usado para condimentar legumes e verduras frescas. Trata-se de um prato rústico, originário da Idade Média, com sabor marcante e aquele tipo de aroma que toma conta do ambiente.