Você pode comer e cozinhar como Claude Monet

“Bem-vindo à Giverny, a minha casa. Almoço em breve nos jardins. Queijos franceses, enchidos, pão, manteiga doce da Normandia, cidra gelada e espumante. Eu esqueci alguma coisa? Junte-se a mim. “, Claude Monet.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ele não cozinhava, jamais tocou em uma panela, mas sabia comer como ninguém. Detalhista e minucioso, era ele quem decidia tudo sobre a rotina de refeições da casa. Dos fornecedores dos alimentos até a escala rígida de horários, todo o qualquer detalhe passava por suas mãos.

Conhecer o paladar de Claude Monet foi uma aventura. Comecei guiada por dois livros e um DVD, eu passei noites em claro querendo saber cada vez mais sobre os pratos que encantavam o pintor. Depois disso, sob o comando dos nossos chefs Rosny Gerdes Filho e André Valobra, viramos noites mergulhados em cortes, molhos, massas, cremes, reduções…Mas o melhor de tudo isso foram os momentos que vivemos nessas noites que sempre terminavam do mesmo jeito: Todos juntos ao redor da mesa, comendo e celebrando a nossa deliciosa amizade!

O resultado foi a elaboração de dois menus completos com pratos inspirados nas preferências gastronômicas do famoso pintor e em todo o ambiente que o cercava.

O nosso menu ficou assim:

Entrada1 : Experiência de salmão com cores do meu jardim (Salada de folhas com salmão gravilax)

Prato principal 1: Roulade Monet de mignon de suíno e parma ao molho de camemberte e cogumelos

Sobremesa 1: Um barco no lago de Giverny (Mil folhas, creme patissier, compota de pêssego)

Entrada 2: O lago das ninfeias (Velouté de aspargos com toque de cogumelos)

Prato principa 2: Vitelo com gratin de batatas sobre um leito folhado

Sobremesa 2: Torta do sonho de Monet(A versão Rosny Gerdes da Normandy French Apple Tarte)

A Vida em Giverny

Vamos falar sobre o final do século XVIII, início do XIX, época em que comer bem era sinônimo de comer muito.

Claude Monet (Paris 1840 – Giverny 1926) foi o mestre das luzes e representou um dos mais importantes mentores do movimento impressionista. Retratava a natureza com todas as suas formas, cores e nuances.

Apaixonado pela natureza, aos 43 anos ele foi viver em Giverny, uma pequena cidade às margens do Sena, localizada a cerca de 70 km de Paris. Nesse lugar ele deu vida à sua pitoresca casa de campo, emoldurada por um jardim dos sonhos. Ele chegou ao lugar acompanhado por sua segunda mulher, Alice e oito filhos (dois dele e seis dela).

Com a ajuda das crianças, ele semeou as primeiras sementes nos jardins e horta da propriedade. Além de uma enorme variedade de flores, plantou verduras, legumes, ervilhas, alfazema, rabanetes.

Cantinhos preferidos

3-Pergunta3_SALAJANTAR

Além do atelier, a cozinha e a sala de jantar eram lugares sagrados para Monet. Tanto que foram os primeiros ambientes da casa totalmente reformados após a mudança da família.

3-3-Pergunta3_COZINHA

A cozinha foi pintada de azul e a sala de jantar amarelo, mas não estamos falando de qualquer azul ou qualquer amarelo. Foi o próprio Monet quem elaborou cada um a das tonalidades e, antes de autorizar o trabalho, discutiu longamente com o pintor de paredes como queria cada tonalidade. Dizem que foi difícil para um simples trabalhador da cidadezinha francesa entender o motivo de tanta exigência em relação às tintas.

Uma passagem interessante do livro À Mesa com Monet (Editora Sextante retrata bem o capricho e exigência de Monet em relação à sua cozinha: “O fogão deve cochilar como um gato ao cozer em fogo brando, ou entusiasmar-se até as labaredas do inferno quando grelhar, exibindo ao mesmo tempo um humor uniforme no forno lajeado de azulejos refratários.”

Cadernos de Receitas

2

É incrível saber que, nos cadernos de receitas de Monet, foram encontradas receitas passadas por Paul Cezanne, Madame Renoir e Jean Millet. E também um roteiro dos principais restaurantes da época.

Ao redor da mesa

Para Monet comer representava um ato de celebrar e compartilhar os bons tempos entre amigos e familiares. Comer para ele era também uma oportunidade de conversar, trocar ideias e desfrutar da companhia da família e dos amigos.

Tanto na alimentação diária, como nas ocasiões especiais, Monet deu para a mesa a importância que ela merecia, sem negligenciar qualquer detalhe, tanto na atmosfera que envolve os alimentos quanto ao conteúdo dos pratos.

Comida com hora marcada

Como todo gênio, Monet tinha um lado rabugento pra ninguém botar defeito. Sua mulher Alice encarou um páreo duro para não deixar seu barbudão zangado. Ele fazia questão absoluta de seguir uma rígida rotina de horários.

Acordava muito cedo para poder pintar o nascer do sol. Tomava um banho gelado e, em seguida, um café da manhã bem reforçado, servido geralmente ao ar livre, enquanto trabalhava. Ovos com bacon, chouriços de vitela grelhados, queijo (holandês ou inglês tipo Stilton), torradas com geleias de laranja e chás.

Fazia questão de almoçar pontualmente às onze e meia, e em seguida aproveitava a luz da tarde para trabalhar. Não admitia o mínimo atraso, e quando isso acontecia demonstrava sua insatisfação pigarreando para chamar a atenção. Não gostava de se demorar à mesa. As refeições deveriam ser rápidas, caso contrário ficava irritado.

Monet era um homem do dia e não gostava de receber convidados para o jantar pois dormia cedo, mais tardar às nove e meia. Entre os notáveis que desfrutaram dos refinados banquetes servidos na casa de Giverny estavam Camille Pissarro, Auguste Renoir, Georges Clemenceau, Auguste Rodin, e Paul Valery.

Horta e pomar

Adorava semear culturas mais delicadas e encarava sua horta como uma extensão do jardim. Tudo tinha uma ordem para ser plantado e essa ordem respeitava também a harmonia das cores.

Ele ficava uma fera se percebesse que os legumes haviam sido colhidos antes da hora. Selecionava tudo e fiscalizava o trabalho dos empregados.

O staff do pintor

A casa de Giverny contava com um a criadagem de porte. Marguerite era a cozinheira, Félix o jardineiro, Florimond cuidava da horta e Sylvain era responsável pela adega, ateliê e automóveis. Havia também Paul, marido de Marguerite, que ocupava o posto de um funcionário de confiança, um faz tudo que atendia o pintor em todas as suas necessidades e caprichos.

Deixa que eu corto!

Gostava que as aves fossem levadas inteiras à mesa, para que ele mesmo pudesse corta-las. Tinha um ritual bem pessoal de cortar primeiro as asas. Na sequencia polvilhava com noz moscada, pimenta moída e sal grosso e pedia para Paul levar tudo para uma grelhada final, em fogo forte.

Adorava assados de galinhola, uma ave portuguesa muito popular na região.

Saladinha picante

Algumas de suas saladas preferidas: Aspargos, que precisavam estar mal cozidos Endívias temperadas com alho e croutons Dente-de-leão com toucinho frito Pourpier, conhecida no Brasil como ora-pro-nóbis As endívias, vagens e castanhas deviam sempre serem cozidas no vapor. Espinafres deveriam ser cozidos em pouquíssima água para não perderem o sabor e a cor.

Algumas de suas saladas preferidas:
Aspargos, que precisavam estar mal cozidos
Endívias temperadas com alho e croutons
Dente-de-leão com toucinho frito
Pourpier, conhecida no Brasil como ora-pro-nóbis
As endívias, vagens e castanhas deviam sempre serem cozidas no vapor.
Espinafres deveriam ser cozidos em pouquíssima água para não perderem o sabor e a cor.

Ele pegava uma colher cheia de pimenta negra moída, misturada com sal grosso. Mergulhava essa mistura num pote com azeite e finalizava com uma gota de vinagre de vinho. Derramava esse tempero sobre suas folhas e devorava sozinho. Uma outra versão menos picante era feita para o resto da família.

Cardápios elaborados

Alice não tinha vida mole. Além de cuidar dos oito filhos, comandar a casa e preparar o ambiente para receber com estilo os amigos e marchands que visitavam o marido, ela sempre elaborava os cardápios com uma semana de antecedência. Isso para que Monet pudesse analisar e aprovar tudo.

Lanchinho no campo

A família tinha o hábito de fazer picnic e Monet aproveitava as ocasiões para colher cogumelos. Adorava servir cogumelos no azeite. Aliás, reza a lenda que esta é a única receita criada por ele.

Mesa personalizada

PERGUNTA1_-MONETjantares

Monet desenhou os dois famosos serviços usados em sua casa, na hora das refeições: Serviço amarelo: porcelana branca de borda amarela larga e filete azul, reservado para os dias de festa ou para receber convidados ilustres. Serviço Japon: Uma louça azulada decorada com motivos de cerejeiras e leques estilizados azul-escuro.

Galinhas e Patos

A casa de Giverny sempre teve um galinheiro, instalado bem ao lado da cozinha.
A família não apreciava peru, mas criavam alguns pois achavam os animais divertidos.

O viveiro de patos criado por Monet tinha um tanque para que as aves pudessem nadar, poleiro e recantos cobertos de matos para que fossem criados os ninhos. Criavam patos mais nobres como os de Nantes e os patos brancos indianos, pois as fêmeas são boas poedeiras.

Monet considerava os criadores locais pouco cuidadosos com suas crias e fazia questão de percorrer as propriedades procurando aves de qualidade.

Detestava coelhos domésticos e só comia lebres e coelhos selvagens.

Fundação Claude Monet

Claude Monet morreu em 5 de dezembro de 1926, vítima de câncer. Após a sua morte, o filho Michel Monet herdou a propriedade e também suas coleções e os quadros.

Michel era um homem aventureiro e decidiu viajar para um safari na África. Deixou a propriedade aos cuidados de Blanche Monet-Hoschedé, filha de Alice. Ela seguiu cuidando de tudo com a ajuda de alguns funcionários, até sua morte, em 1947. Depois disso todos os bens e a propriedade ficaram literalmente abandonados.

Michel Monet morreu em 1966 e deixou escrito em seu testamento que todos os seus bens seriam doados à Academia de Belas Artes. Somente em 1980 a Fundação Claude Monet foi oficialmente criada. Nesse mesmo ano a casa de Monet passou a ser aberta ao público.

Atualmente os jardins de Monet recebem uma média de 500 mil visitantes por ano e representa o segundo maior ponto turístico da Normandia, perdendo apenas para o Monte Saint Michel.

Monet’s Palate foi criado em 2012,com a proposta de transportar as pessoas para o mundo de Claude Monet em seus aspectos mais sutis e íntimos. Nove chefs conceituados recriaram pratos apreciados pelo artista e o resultado é apresentado em um livro e um DVD lançados pela Fundação Claude Monet.

O projeto representa um convite imperdível para visitar a encantadora Giverny e desfrutar por alguns momentos da energia incrível do artista.

Fotos: Vinicios Costa
Agradecimentos:
Atelier Hideko Honma
Phiroza Gastronomia

Comments

comments