Memórias de Audrey Hepburn na cozinha

“Para ter lábios atraentes, diga palavras doces; para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas; para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos…”. Audrey Hepburn

promotionalSabrinaEla é o ícone mais cultuado do cinema clássico, assim como Marilyn Monroe. Era uma mulher com um brilho especial e despertava sentimentos de carinho e adoração.

Audrey me conquistou por seu jeito de viver a comida, pela simplicidade refinada, pelo carinho com o qual tratava os alimentos e seu interesse em aprender receitas, buscar informações culinárias e anotar dicas caseiras de como escolher um alimento, qual o melhor tipo de mussarela ou como higienizar um jarro.

Decidi conhecer o paladar da atriz em julho deste ano, soube que seu filho, Luca Dotti estava lançando o livro Audrey at Home. Rapidamente loguei minha conta na Amazon, comprei sem pensar muito, e em 10 dias o livro chegou “fresquinho” em minha casa.

Um livro incrível! Uma história contada pela ótica da cozinha. Audrey encontrou a verdadeira felicidade oferecendo amor e cuidados para os seus filhos, animais e amigos. Ela fazia questão de servir uma comida preparada com dedicação e alegria. “Entendia a cozinha como uma maneira de fazer todo mundo feliz. Nunca quis ser uma chef como os mestres da Le Cordon Bleu”, conta seu filho caçula, o autor.

Daí pra frente meus dias se passaram com ela ao meu lado. Comecei a sentir que éramos amigas de infância, íntimas, com gostos, pensamentos e sentimentos semelhantes. Ganhei uma companheira incrível e todas as noites nos sentávamos na poltrona preferida e passávamos horas trocando ideias sobre molhos, ponto da carne, tempero do peixe, fruta ideal para a sobremesa e, é claro, como fazer a melhor mousse de chocolate de todos os tempos.

Vídeo: As memórias culinárias de Audrey Hepburn na tv
Receita: O papillote do restaurante em Istam

Coisas bacanas que o livro me contou

12088441_709762065820821_2657651140410876965_nLuca Dotti conta que sua mãe era viciada em pasta e preferia os pratos simples e saborosos. Jamais se preocupou em comer somente coisas mais sofisticadas, o importante era a qualidade dos alimentos.

Adorava Spaguetti ao pomodoro e, sempre que chegava em casa depois de uma viagem, fazia questão de ser recebida com um belo prato de massa. Ops, um prato não, uma bela travessa, afinal tinha um apetite de gente grande e sempre repetia o prato.

“Ela era louca por massas. Todas as suas amigas ficavam impressionadas como ela sempre fazia dois pratos”, afirma Luca.

Tempos difíceis

Audrey-Hepburn-1938Foi uma sobrevivente da ocupação alemã e sentiu na pele o drama da guerra. Ainda garotinha, viu pessoas serem levadas pelo exército alemão e jamais voltarem. Aos 16 anos Audrey sofria de asma, icterícia, anemia aguda e edema.

Para sobreviver comeu urtigas e tentou cozinhar grama para se alimentar. Contava ainda que também comia tulipas e, após a guerra tentou recuperar suas forças consumindo uma grande quantidade de espinafre, muesli, fígado e chocolate.

tumblr_mwc6c4s9SG1qbilh4o1_r1_1280 (1)O macarrão que virou excesso de bagagem

Certa vez, a família viajou para a Jamaica e, ao chegarem ao hotel, seu companheiro Robert Wolder foi ajuda-la a desfazer as malas e colocar tudo no armário. Encontrou algo estranho e perguntou: “O que tem aqui Audrey, tijolos ?”. Ela respondeu com um sorriso de satisfação: “Pasta…”. Na bagagem foram encontrados vidros de azeite de oliva e pedaços de parmegiano reggiano.

Pasta e tv

Outra paixão era o penne com ketchup. Seu programa preferido era sentar diante da tv com os filhos, e comer um bom prato da simples preparação.

Nossa versão do Papillote de Robalo que encantou a atriz.

Nossa versão do Papillote de Robalo que encantou a atriz.

Na televisão apreciava os filmes clássicos, os números de dança e também programas de variedades. Não deixava o filho assistirem shows de perguntas e respostas que ofereciam prêmios em dinheiro. Considerava um péssimo exemplo para a formação das crianças.


O peixe do restaurante em Istambul

Em 1968, após o fim de seu casamento com Mel Ferrer (que era um cara ciumento além da conta), ela estava triste e desiludida. Foi quando decidiu aceitar um convite para sair num cruzeiro pela Grécia, a bordo do luxuoso iate Calisto. Nessa viagem ela conheceu o psiquiatra italiano Andrea Dotti com quem se casou no ano seguinte.

Em uma parada em Istambul, Audrey conheceu o restaurante Pandeli, localizado na entrada principal do Bazar das Especiarias. O lugar sempre foi requentado por grandes estrelas de Hollywood e até hoje tem uma foto da atriz em uma de suas paredes. Nesse lugar ela conheceu e se apaixonou pelo Pandeli’s Sea Bass en Papillote (papillote de robalo), prato que também encantou Toni Curtis e Robert De Niro.

Uma casa com pomar, horta e a promessa de uma vida perfeita

Em 1965, ainda vivendo ao lado do primeiro marido, Audrey comprou La Paisible (Lugar de Paz), uma vila localizada em Tolochenaz, localizada a 30 milhas de Genebra, na Suiça. Viveu nesse lugar durante 3 décadas e após sua morte, em 1993, seu corpo foi sepultado no cemitério da cidade.

Luca Dotti conta que sua mãe sempre fez questão de ter uma propriedade auto sustentável e chegou a fazer planos de criar coelhos e galinhas, mas desistiu só de pensar que teria que um dia abate-los.

“Toda minha vida o que eu queria era ganhar dinheiro para ter minha própria casa. Eu sonhava ter uma casa com jardim e arvores frutíferas”, dizia Audrey.

Dia de feira

Adorava ir às compras sozinha, em mercados dos produtores que viviam nos arredores de sua casa. Quando era dia de compras, ela passava horas percorrendo as fazendas e comprando alimentos orgânicos fresquissimos. Conseguir esse tipo de produto naquela época era algo raro.

Força pra recomeçar

A paixão pelo jardim, pomar e horta a acompanhou durante toda a vida. Luca guarda lembranças de uma mãe que parecia estar sempre preparada para recomeçar do zero.

Em uma de suas lembranças ele conta que, certa vez, Robert Wolder comentou estar preocupado com a possibilidade de ficarem sem dinheiro. Audrey respondeu: “O que? Se nós perdermos tudo, temos um jardim, podemos plantar batatas e come-las”

Plantar para comer

Lembranças de uma infância sofrida em tempos de guerra sempre estiveram muito presentes na vida de Audrey. Depois de conquistar o sucesso e uma ótima condição financeira, ela sempre comemorava as mudanças de estações fazendo um balanço de todas as produções disponível na horta e pomar. Dizia “agora nós temos …” e enumerava as frutas e vegetais que poderiam ser colhidos nos próximos dias. Para ela, cada colheita representava um pequeno milagre.

O cardápio da casa era criado de acordo com a produção da horta e do pomar. Como ela amava molho de tomate, o jardineiro sempre os plantava em grande quantidade para que pudessem congelar e ter o produto durante o ano todo.

Fazia questão de ter à mesa uma boa combinação de cores. Se havia um assado de marrom, era preciso completar com cores verde ou o bonito laranja das cenouras. Luca lembra das mesas fartas com arroz , cenoura, batata , legumes comprado no mercado dos fazendeiros e muitas frutas.

Audrey Hepburn também criava vacas e certa vez, durante um verão muito quente, em 1987, autorizou seus animais a pastarem no jardim. A generosidade foi motivo de admiração por parte de todos que viviam ao seu lado, mas deixou os cães da casa enlouquecidos.

Pratinho caseiroUma de suas receitas mais famosas era bem fácil de fazer: batatas assadas e recheadas. Ela cozinhava as batatas no forno e cada um recheava à sua maneira.

Também era apaixonada por uma receita de frango ao molho de soja que conseguiu na década de 1980. Ela não se prendia a receitas, mas gostava de recortar os cartões de culinária publicados pela revista Elle.

Eu só quero chocolate…

Remexendo as coisas de sua mãe, Luca encontrou um envelope com papeis e anotações datadas de 1981. Junto com a papelada estava a cópia do menu servido em um jantar na Casa Branca, onde Audrey foi recebida pelo então presidente Ronald Regan e sua mulher, Nancy.

Audrey Hepburn, menu do jantar com o presidenteEle conta que nunca soube a opinião da mãe sobre o banquete oferecido na ocasião. Porém uma coisa é certa: tanto ela, quando o presidente amaram a sobremesa. Os dois sempre foram alucinados por mousse de chocolate e Audrey acreditava que chocolate tinha o poder de curar a tristeza.

Menu do jantar na Casa Branca:

Bisque de camarões
Palitos de erva doce
Peito de frango com pimenta vermelha
Arroz branco
Pequenas ervilhas adocicadas
Endívidas belgas e alface bibb
Queijo Brie com torradas
Mousse de chocolate

Champanhe
Silwood Cellars Chardonnay
Schramsberry Crémont

Página do livro Audrey at Home

Comidinha de cachorro

Era apaixonada por animais e teve vários cães. O mais famoso de todos foi Mr. Famous, um yorkshire que estava sempre com ela, até nos bastidores das filmagens. Essa vida de celebridade canina acabou dando origem a uma york-mania entre as mulheres norte americanas. Todas queriam ser elegante e bonita como Audrey, e ter um cãozinho igual ao da estrela virou moda.

Extremamente cuidadosa com seus mascotes, também se preocupava em descobrir receitas de boa comida para alegrar a cachorrada. O livro traz a seguinte anotação: “Ossobuco também fazia a alegria dos amados cães da mamãe. Saiba como fazer: remover a cartilagem dos ossos e sobras e, em seguida, ferva os ossos durante cerca de 1 hora. Os seus cães ficarão muito agradecidos”.

Madeleines, café com leite e lembranças

Fazia questão de um café da manhã completo e saudável e não permitia que seus filhos pulassem essa refeição, nem quando adotava seu dia detox e comia apenas um yogurt e maça ralada.

Durante seus últimos anos de vida, o café-da-manhã era marcado por longas conversas e confidências. Sempre que os filhos Sean e Luca estavam em La Paisible, todos se reuniam na cozinha ela descia para a cozinha usando um robe e preparava madeleines, que era o bolinho preferido da criançada, e um bom café com leite para seus “meninos”. Servia também pão, manteiga e geleia, tudo feito em casa.

Luca conta: “Na cozinha tínhamos um canto com uma mesa, e ele sempre foi o lugar onde ela gostava de reviver suas memórias mais emocionais da juventude ou dos tempos em que se apaixonou por meu pai […] Em muitas famílias, café da manhã, almoço e jantar representam momentos para trocar ideias, contar fofocas e comentar as notícias. Para minha mãe, e nossa família, era muito importante essa reunião em torno da mesa, especialmente quando já éramos mais crescido e não vivíamos todos na mesma casa”.

Sobremesa de frutas

O pomar da acolhedora casa de Audrey produzia frutas variadas, principalmente pêssegos, ameixas, peras e maçãs. Além das compotas e das peras ao vinho, amava devorar um crumble de maçã, devidamente acompanhado com uma bela bola de sorvete de baunilha (seu preferido).

Flores do jardim

Adorava sair caminhando pela propriedade para colher flores. Depois de longos passeios chegava feliz, com uma cesta cheia e colorida. A paixão pelas flores começou na infância, quando aprendeu o nome de cada espécie. Amava as flores não pela estética, e dizia que elas a tocavam de uma maneira muito profunda.

Certa vez, ao receber a notícia que a atriz teria pouco tempo de vida, seu jardineiro Giovanni perguntou, triste, como ele conseguiria cuidar do jardim quando ela não estivesse mais por perto. Audrey respondeu: “Eu vou continuar te ajudando, mas de um outro jeito”.

Ainda em vida as flores lhe renderam duas homenagens especiais: Uma tulipa e uma rosa com seu nome. Dizia que ter duas flores chamadas Audrey Hepburn representaram os dois presentes mais românticos que recebeu durante toda vida.

Abaixo o vídeo da cerimônia de entrega da Tulipa Branca com o nome de Audrey Hepburn.

Audrey at Home
Autor: Luca Dotti
Capa dura: 256 páginas
Editora Harper Design (16 de junho de 2015)

Agradecimentos: Phiroza Gastronomia, Atelier Hideko Honma, Quattro Stagioni .